16 de ago de 2016

Frutas cristalizadas e amor próprio

Devido às minhas constantes viagens seja para a casa dos meus pais ou à trabalho sempre encontro pessoas com histórias interessantes assim como o desiludido do ônibus e a dona da carteira. O episódio que vou contar hoje aconteceu há alguns meses quando estava voltando de Curitiba, depois de dois dias de exaustivas reuniões.

Como incrivelmente não estava atrasada passei antes no Mercado Municipal e comprei algumas frutas cristalizadas importadas, deliciosas diga-se de passagem e então fui pra rodoviária. Eu gosto de comprar passagem para os primeiros lugares porque são mais espaçosos e eu gosto de dormir muito durante as viagens. Quando eu entrei já tinha uma senhorinha na poltrona ao lado, ela foi muito simpática e logo já puxou assunto, a primeira coisa que disse foi: "Que bom que vai uma mocinha do meu lado, não gosto quando senta algum homem, nunca dá pra ficar conversando". Foi aí que percebi que não dormiria nessa viagem.

Então iniciamos uma conversa, quer dizer, praticamente um monólogo porque ela era uma daquelas senhoras que gostam de conversar muito e contar toda a sua vida, eu como uma boa ouvinte fiquei prestando atenção e apenas balançando a cabeça em alguns momentos e respondendo algo quando ela raramente me dava a oportunidade de falar. Ofereci um pouco das minhas frutas cristalizadas, ela deu uma mordidinha só e esqueceu de comer o resto, segurando-as na mão o restante do caminho porque não parava de falar nem pra comer.

Me contou de onde era, o motivo de estar viajando (morte de uma irmã), me contou dos filhos cheia de orgulho porque um era dentista e o outro médico e morava na Itália, me contou dos netos, particularmente de uma neta que era filha da sua filha adotiva e que agora estava terminando a faculdade de direito. Me disse como era a vida antigamente, das coisas que ela já vez, dos lugares que conheceu.

Muitas vezes repetia a mesma história e eu fazia de conta que era a primeira vez que estava ouvindo, ou então parava no meio de uma história e perguntava: "Sobre o que mesmo eu estava falando?" Eu estava achando muito gostoso estar ali conversando com ela porque via nela a minha avó que se foi tão cedo e que infelizmente não convivi tanto quanto gostaria. Eu sentia que ela era muito carente, ainda mais depois que ela me contou que morava sozinha, que viajava sozinha, acho que ela gostava quando "mocinhas" sentavam ao lado dela e davam a oportunidade para ela desabafar, contar sua vida, ser ouvida.

Uma das coisas que mais me marcou foi quando ela me contou do ex marido, ele era dentista e professor universitário e a deixou pra ficar com uma de suas alunas. Ela me disse: "Filha, ame a você mesma antes de amar qualquer outra pessoa porque as pessoas nos enganam, nos traem quando menos esperamos, por isso se cuide, viva pra você!"

Antes de nos despedirmos ela percebeu que ainda estava com um pedaço de fruta cristalizada nas mãos e terminou de comer. E me deu o número do telefone da sua casa para que se um dia eu fosse até a cidade dela era pra telefonar, ela iria me encontrar e me levar pra tomar um café, olha o nível de carência da pessoa. Dona Alcinda, talvez eu nunca vá pra sua cidade, talvez eu nunca lhe telefone ou nunca tome um café contigo, mas nunca vou esquecer sua história e principalmente seus conselhos. 

2 comentários:

  1. ai, que história docinha haha <3

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  2. Muito legal, Ana. Até me emocionei aqui. Isso me fez lembrar de um situação parecida que tive no ônibus, quando eu era cobrador ainda. Uma senhora sentou no banco da frente e começou a puxar assunto comigo. Nunca fui muito de conversar com passageiros, mas naquele dia foi diferente e me mostrei interessado pelo o que aquela senhora tinha a me dizer. Notei de cara que ela era diferente dos outros idosos. Sabia se expressar com mais classe, digamos assim. Era uma pessoa inteligente. Disse que estava indo viajar, morava sozinha, perto de casa. Contou do filho dela que era piloto de caça, falava vários idiomas e era bem mulherengo, haha. Ela me falou bastante coisas, e, como você disse, às vezes só mexia a cabeça. Fomos conversando do bairro da minha casa até à Prefeitura. Nunca mais a vi.

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