A louca das listas

10:53

Aprendi com a minha mãe a sempre anotar tudo, independente de ser algo rotineiro ou não e venho desenvolvendo essa mania cada vez mais, quem me conhece sabe que tenho lista pra tudo, inclusive tenho uma lista das listas. Pode parecer loucura, mas é assim que consigo me organizar. Sem anotar, sem fazer listas não sou nada, minha memória é muito relapsa e as vezes me deixa na mão, então as listas sempre estão lá para me salvar.

Estou aprendendo com a Maki a desenvolver meu Bullet Journal, mas enquanto isso não vai pra prática vou fazendo listas em todos os lugares, na agenda, em papéis avulsos, na palma da mão, no Listography e agora aqui no blog.

Então, ali em cima nas abinhas ao lado de INÍCIO, SOBRE, 1001 PESSOAS, BLOGROLL... terá mais uma aba chamada ESTANTE onde vou colocar as listas de filmes, livros, séries etc. Eu sei que pra isso tem o Filmow e o Skoob, mas deixa eu fazer do meu jeito porque assim me sinto bem.  Vou atualizando aos poucos, então pode ser que não tenha muita coisa no momento, mas vou melhorando conforme puder.

Para contextualizar melhor essa minha paixão por listas vou transcrever um texto escrito em 2010 por Alan Pauls, escritor argentino que foi publicado na Folha de São Paulo e que traduz de uma maneira mais sociológica tudo o que eu sinto sobre:

Fazer listas é colocar ordem nos desejos

"Fazemos listas desde sempre, desde antes de escrever. Nenhum garoto precisa conhecer o alfabeto ou as regras de concordância para enumerar o que quer em seu aniversário. Basta ele desejar e compreender que algo tão despótico quanto o desejo requer algum tipo de lógica.

É essa a função da lista: colocar certa ordem no desejo. Uma ordem básica, simples, rudimentar, mas absolutamente decisiva. Porque, sem ela, o garoto (ou seja: nós) se perderia. Ficaria à mercê de duas imensidões oceânicas: a do seu próprio desejo (por definição ilimitado) e a de tudo o que o mundo tem para lhe oferecer.

Elementar e ao mesmo tempo milagrosa, a lista é a primeira maneira que temos de não naufragar no mundo e de não aceitá-lo como ele é. Serve para recortar o mundo, capturá-lo, deixar uma marca que fale de nós nele.

Em sua meia língua, o menino que faz aniversário pede: “Um triciclo, um Woody, um chiclete, uma bola, um dragão que cospe fogo”. Essa lista impessoal é o mais pessoal que existe, porque é a intersecção entre seu desejo e o repertório interminável de presentes que espreitam no mundo.

Não é por nada que vivemos fazendo listas. Listas de compras, de convidados, de trabalhos a cobrar, de dias de prisão que faltam ser cumpridos, de filmes a ver, de livros para as férias, de amigos com os quais gostaríamos de tomar um drinque. Nesse gênero seco, mecânico, burocrático, há uma humanidade que comove.

A lista dá voz e forma ao que há, ao que se necessita, o que se ambiciona, o que se realizou, e, nesse sentido, parece condensar quatro ou cinco núcleos de experiência nos quais a espécie toda poderia se reconhecer: desejo, memória, registro, necessidade, sonho.

PAIXÃO
Com seu estilo desafetado, monótono, de repartição pública, a lista com frequência é o testemunho mais precoce e categórico de uma paixão.

O crítico de cinema Serge Daney dizia que o verdadeiro cinéfilo não é apenas aquele que vai muito ao cinema, desenvolve gostos sofisticados e é capaz de alçar-se em armas em nome de um diretor -é sobretudo aquele que passa a experiência do cinema para a experiência da lista: aquele que não para de sistematizar sua pulsão de fã em rankings e outras práticas nas quais confluem o ardor da paixão e a rotina contável.

A suntuosa espetaculosidade do filme de Spielberg (“A Lista de Schindler”) não nos fará esquecer o que a lista de Oskar Schindler foi, o que descobriram aqueles que a encontraram na mala que, em 1974, quando Schindler morreu, reunia o que restava da sua fortuna: uma folha com 1.200 nomes escritos.

TUDO E NADA
Ou seja, um arquivo: algo que é tudo e nada ao mesmo tempo. Como é tudo e nada ao mesmo tempo a lista de desaparecidos apresentada há dois meses por uma testemunha em Tucumán, Argentina, durante o julgamento de dois dos responsáveis pela repressão ilegal movida sob a ditadura de 1976-83.

São nove páginas de tamanho ofício escritas a máquina, com os nomes de 293 pessoas. Ao lado de 195 se leem as iniciais DF (disposição final), um eufemismo para dar nome ao crime. A lista não é nada: não diz quem eram, o que faziam ou porque nunca voltaram a ser nem a fazer o que eram e faziam antes de os terem inscrito nessa folha.

Mas é tudo, porque é o primeiro dado oficial das técnicas repressoras que aparece em quase 30 anos, o primeiro que -produzido pelos próprios militares, com suas máquinas de escrever- comprova que a repressão foi sistemática e metódica. A tal ponto que, como uma inversão macabra das listas apaixonadas do cinéfilo, os exterminadores não puderam resistir à tentação de registrá-la em uma lista."

Texto de: Alan Pauls
Tradução: Clara Allain





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4 suspiros

  1. Adorei esse texto, Ana! E me identifiquei pra caramba, claro, pois também faço parte do grupo louca das listas sociedade anônima, haha. Meu blog é cheio das listas, meu planner está, aos poucos, se transformando em um bullet journal, e isso tem sido maravilhoso. Enquanto o método do planner é super engessado, o bujo tem me dado a liberdade necessária para anotar o que preciso fazer sem frescuras. <3

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  2. eu adoro listas! mas confesso que ultimamente estou deixando de lado e isso me prejudica... esse post me trouxe motivação para voltar <3

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  3. hauhua obrigada pelo manifesto da lista <3 <3 me sinto menos louca huahua

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

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  4. Eu prefiro achar que somos uma geração High Fidelity e a ordem do nosso unierso está em listas. Adoro listas. Passo horas no buzzfeed. Se tá em lista, eu dou uma olhada. E mentalmente tenho muitas listas. E nem reclamo não, acho ótimo. Dá ordem no universo ;)

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